Como entrevistar usuários - um guia para engenheiros de software
Baseado no livro The Mom Test de Rob Fitzpatrick.
Já se frustrou ao descobrir que passou semanas desenvolvendo uma funcionalidade que ninguém usa? Ou pior: construiu um produto inteiro que não resolve o problema real do usuário? Se sim, você não está sozinho - este é um dos maiores desafios que nós, engenheiros de software, enfrentamos.
Como engenheiros, somos treinados para resolver problemas técnicos, não para descobrir quais problemas precisam ser resolvidos. Essa é a raiz de muitos produtos fracassados: entendemos mal o problema desde o início.
A boa notícia? Podemos melhorar nisso com algumas técnicas simples de entrevista com usuários.
Neste artigo, vou compartilhar o que aprendi com o livro "The Mom Test" de Rob Fitzpatrick, que mudou completamente minha abordagem sobre como entender as necessidades dos usuários.
✨ O que esperar do artigo
Por que a maioria das entrevistas com usuários produz dados inúteis ou enganosos
Como usar "The Mom Test" para obter informações honestas e valiosas
Exemplos práticos de perguntas boas e ruins para usar em suas próximas conversas
🧩 O problema das entrevistas típicas
Entrevistar usuários é como fazer uma escavação arqueológica delicada. A verdade - os reais problemas e necessidades - está enterrada sob camadas de educação social, vieses e suposições. É preciso usar as ferramentas certas para não danificar essas informações valiosas.
O problema é que tendemos a fazer perguntas tendenciosas que levam os usuários a dizer o que queremos ouvir:
"Isso é uma boa ideia?"
"Você usaria um aplicativo que faz X?"
"Quanto você pagaria por um produto assim?"
Essas perguntas convidam à mentira e resultam em falsos positivos que podem custar caro.
As pessoas naturalmente querem ser educadas, especialmente quando sabem que você está apaixonado por sua ideia. Elas vão dizer coisas como "parece ótimo!" ou "eu definitivamente usaria isso", mesmo quando não fariam nada disso.
🧠 The Mom Test
Rob Fitzpatrick chama isso de "The Mom Test" (O Teste da Mãe) - se até sua mãe pode mentir para você sobre sua ideia de negócio, você está fazendo as perguntas erradas.
O Mom Test consiste em três regras simples:
Fale sobre a vida deles, não sobre sua ideia
Pergunte sobre fatos específicos do passado, não opiniões genéricas sobre o futuro
Fale menos e escute mais
Essas regras levam a perguntas que até sua mãe não conseguiria mentir para você. Quando você faz isso direito, eles nem saberão que você tem uma ideia.

💬 Como fazer perguntas que trazem respostas honestas
Vamos ver alguns exemplos de transformação de perguntas ruins em boas, com base num exemplo do livro:
Ruim: "Você compraria um app que organiza suas receitas?" Bom: "Como você organiza suas receitas atualmente?"
Ruim: "Quanto você pagaria por uma ferramenta que economiza 2 horas por semana?" Bom: "Quanto tempo você gasta nessa tarefa hoje? Quais são as implicações disso para seu trabalho?"
Ruim: "Você acha que essa funcionalidade seria útil?" Bom: "Me conte sobre a última vez que você enfrentou esse problema. O que você tentou fazer?"
No contexto de engenharia de software, podemos aplicar isso assim:
Ruim: "Você usaria uma dashboard que mostra todas as métricas do sistema em tempo real?" Bom: "Como você monitora o desempenho do sistema atualmente? Quais informações você verifica com mais frequência?"
Ruim: "Essa API seria mais fácil de usar?" Bom: "Qual foi a última API que você integrou? Quais desafios você enfrentou?"
O segredo é focar nos problemas, comportamentos e restrições atuais das pessoas - não nas suas opiniões sobre uma solução hipotética que você propõe.
🚫 Evitando dados ruins
Há três tipos de dados ruins que surgem em entrevistas com usuários:
Elogios - Quando alguém diz "isso é incrível!", não significa nada. Elogios são o ouro dos tolos nas entrevistas: brilhantes, atraentes e completamente sem valor.
Generalidades - Declarações como "eu geralmente", "eu sempre", ou "eu nunca" não te dizem nada. Assim como promessas futuras como "eu compraria" ou "eu usaria". Pessoas são otimistas sobre o que fariam no futuro, mas péssimas em prever seus próprios comportamentos.
Ideias - Os usuários adoram dar sugestões e pedidos de funcionalidades. Anote-os, mas não os siga cegamente. Seu trabalho é entender as motivações por trás dos pedidos.
Quando você ouvir esses tipos de dados, desvie e retorne às perguntas concretas:
Se alguém diz "Eu geralmente compro online", pergunte: "Quando foi a última vez que você comprou algo online? Pode me contar como foi?"
Se alguém elogia sua ideia, agradeça rapidamente e volte a fazer perguntas sobre a vida e os problemas deles.
🔍 Exemplos de boas perguntas
Estas são algumas das melhores perguntas para usar em entrevistas com usuários:
"Por que você se incomoda com isso?" (descobre motivações)
"Quais são as implicações desse problema?" (revela o impacto real)
"Me conte sobre a última vez que isso aconteceu." (traz histórias concretas)
"O que mais você tentou?" (revela alternativas e gravidade do problema)
"Como você está lidando com isso agora?" (mostra workarounds e valor)
"De onde vem o dinheiro para isso?" (descobre orçamentos e processos)
🚀 Impacto na sua carreira como engenheiro
Dominar essas técnicas de entrevista mudará fundamentalmente a forma como você aborda o desenvolvimento de produtos.
Em vez de construir e torcer para que as pessoas usem, você estará construindo com confiança, sabendo que está resolvendo problemas reais de maneiras que os usuários realmente valorizam.
Isso não apenas economiza tempo e recursos - também aumenta seu impacto. Engenheiros que entendem os problemas dos usuários criam soluções mais relevantes, têm menos retrabalho, e conseguem influenciar decisões de produto muito antes do código ser escrito.
Lembre-se: a verdade está lá fora nas vidas de seus usuários, não nas suas ideias sobre o que eles precisam.
Com as perguntas certas, você pode desenterrá-las.
🌟 Resumo
A maioria das entrevistas com usuários falha porque fazemos perguntas que incentivam respostas educadas em vez de honestas
O "Mom Test" nos ensina a focar na vida do usuário (não na nossa ideia), em fatos passados (não opiniões futuras), e a escutar mais do que falar
Engenheiros que dominam essa habilidade constroem produtos mais relevantes, economizam tempo de desenvolvimento e têm maior impacto em suas organizações
Se você quiser aprofundar nesse assunto, recomendo fortemente o livro "The Mom Test" de Rob Fitzpatrick. É uma leitura rápida e transformadora para qualquer pessoa envolvida na criação de produtos.
Na próxima parte, veremos como estruturar essas conversas, tomar notas efetivamente e transformar o aprendizado em ações concretas para o seu produto.
📝 Próximos passos
Comece aplicando essas técnicas em pequena escala. Na próxima vez que for desenvolver uma feature, tente ter uma conversa de 15 minutos com um usuário usando as perguntas que aprendemos aqui. Com o tempo, você desenvolverá um sexto sentido para identificar as reais necessidades por trás dos pedidos dos usuários.
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