Fiz uma plataforma de transparência salarial
Uma base aberta e anônima pra você não precisar chutar quando quiser saber quanto o mercado paga hoje. E assim poder negociar melhor, mesmo sem 2 ofertas.
Construí a base de salários da NaGringa porque nós, empregados, só temos a ganhar com transparência salarial.
Eu tava cansado de ver recruiter perguntando “qual a tua expectativa?” no começo do processo. A empresa já tem uma faixa. Você tem o seu salário atual, talvez uma conversa com amigos e o medo de pedir um valor absurdo.
E, se for o primeiro emprego, como saber o que é um salário bom? Como saber se a oferta está dentro do mercado?
Minha primeira tentativa de responder isso virou um artigo sobre os maiores salários do Brasil.
Em 2024, fiz um script em Python para analisar todos os salários brasileiros disponíveis no Levels.fyi. Foi um projeto de final de semana, com ajuda do Cursor. Eu não trabalho com dados, mas já tinha feito algumas aulas de estatística e probabilidade aqui e ali.
O artigo mostrava os maiores salários do Brasil para engenheiros de software. Também tentava explicar por que a média do Levels era tão diferente de outras pesquisas brasileiras.
Eu gosto do Levels e ainda indico todo mundo compartilhar a compensação por lá. A interface é mil vezes melhor que qualquer alternativa.
Porém, nas conversas da comunidade, sempre acabávamos usando alguns proxies: Levels, Glassdoor, Google e o salário de alguém que conhecia alguém naquela empresa.
Toda empresa tem os seus níveis e cargos. Aqui ainda entram CLT, PJ, EOR, consultoria, contrato direto e moedas diferentes. Eu queria uma maneira unificada de comparar isso.
A base está com 364 relatos enquanto escrevo (já deve ter crescido quando vocês receberem o artigo). Desses, 357 salários e ofertas dentro da janela dos últimos 12 meses entram nos percentis brasileiros. A mediana dessa amostra é R$ 17.500 por mês.

Eu não trataria os R$ 17.500 como “o salário de tecnologia no Brasil”. A maior parte das primeiras contribuições veio da audiência da NaGringa, que já tem bastante gente mirando empresas globais. Tem um viés aí.
O número começa a ficar interessante quando você filtra. Quero saber quanto recebe uma pessoa sênior, trabalhando como PJ para uma empresa americana. Ou quanto uma empresa específica costuma pagar. Ou se a oferta que chegou está perto das outras daquela senioridade.
Alguns desses recortes ainda ficam vazios. São 364 relatos, não 364 relatos para cada cargo. Eu prefiro ver um espaço vazio por alguns meses do que fingir que duas respostas formam uma faixa salarial.
O que eu estou chamando de salário
Aqui apareceu outra discussão.
No Brasil, focamos muito no salário mensal. Nas empresas globais, a conversa costuma ser sobre a compensação total anual: salário-base, bônus e equity. Eu considero tudo isso salário.
Um CLT de R$ 15 mil também não é igual a doze pagamentos de R$ 15 mil como PJ. No primeiro caso existem décimo terceiro e adicional de férias. No outro, a pessoa provavelmente vai separar dinheiro para tirar férias, pagar imposto e contratar os próprios benefícios.
Não tentei decidir qual contrato é melhor para todo mundo. A base guarda o tipo de contratação, soma a remuneração do ano e mostra o equivalente por mês, porque é assim que a gente conversa sobre salário por aqui. Os benefícios continuam no relato para quem quiser olhar.
O tipo de contratação fica no relato. Eu queria conseguir separar um CLT de um PJ sem precisar criar duas planilhas.
A referência que eu não tinha em 2020
Comecei a trabalhar para empresas americanas no final de 2020. Entrei na G2i em outubro e, um mês depois, consegui meu primeiro contrato.
Quando contei essa história no primeiro artigo da newsletter, escrevi que iniciantes em marketplaces recebiam por volta de USD 30 por hora. Para startups, coloquei uma faixa começando em USD 60 mil por ano e terminei com “daqui o céu é o limite”.
Era a melhor resposta que eu conseguia dar. E convenhamos: “entre USD 60 mil e o céu” ajuda pouco alguém que acabou de receber uma proposta.
Na época, minha recomendação era perguntar o budget logo no começo do processo. Continuo fazendo isso. Saber a faixa evita perder tempo numa vaga que nunca vai pagar o que você busca.
Quando fiz a análise do Levels.fyi, encontrei uma diferença que ficou na minha cabeça. Uma pesquisa com mais de 15 mil programadores mostrava média de R$ 9.321 em São Paulo. No Levels, a média brasileira era R$ 19.381.
Mais que o dobro.
Eu não achava que uma pesquisa estava certa e a outra errada. As amostras eram diferentes. Quem usava o Levels provavelmente falava inglês e trabalhava em empresas maiores, até porque o site nasceu dentro da Blind e sempre teve bastante gente de big tech.
Foi naquele artigo que conheci a ideia dos tiers de empresa, do Gergely Orosz.
O primeiro grupo compete por funcionários localmente. O segundo compete no país inteiro. O terceiro disputa os mesmos profissionais com empresas de fora. Naturalmente, cada grupo olha para um mercado diferente na hora de decidir quanto pagar.
Essa divisão não é perfeita. Tem startup pequena pagando salário de big tech e empresa enorme pagando abaixo do mercado. Mesmo assim, ela ajuda a explicar por que duas pessoas com o mesmo cargo podem receber valores tão distantes.
Na próxima vez que você estiver procurando emprego, tente pensar em qual grupo a empresa se encontra. Mesmo sem um salário publicado daquela empresa, dá para olhar outras parecidas e ter alguma estimativa do benchmark usado por ela.
É esse tipo de comparação que eu quero melhorar conforme chegam relatos à base. “Quanto ganha um programador?” é uma pergunta ampla demais. Eu quero saber quanto empresas semelhantes estão pagando para trabalhos semelhantes.
No final daquele artigo, voltei a uma preocupação que já tinha aparecido quando escrevi sobre as algemas de ouro:
O salário não é tudo. Procure um lugar que te dê um ambiente que favoreça o aprendizado, onde você trabalhe em problemas que acha interessantes. E, é claro, num lugar que te valorize e pague bem.
A base ajuda com essa última parte.
A base ainda depende de gente disposta a contar quanto ganha. A contribuição leva mais ou menos um minuto, é anônima e libera todos os relatos por doze meses.
Se você procurar um cargo ou uma empresa e não encontrar informação suficiente, me fala qual era. É o melhor jeito de decidir onde a base precisa crescer agora.


