Radar NaGringa #5: quanto paga o mercado gringo para quem está no Brasil
Cruzei 312 vagas internacionais com faixa salarial e 8.041 salários do mercado local. O resultado é a tabela que eu queria ter tido antes de toda negociação.
“Quanto eu peço?”
É a pergunta que eu mais recebo de quem chega na primeira proposta internacional. E quase todo mundo responde no chute, porque os dados que existem não servem: ou cobrem só o mercado local, ou cobrem quem mora nos EUA.
Ninguém cobre direito o recorte que a comunidade NaGringa mais procura: vagas Tier S.
Na nossa definição, vaga Tier S é vaga gringa, remota, aberta para quem está no Brasil. E o dinheiro acompanha: no Portal, 4 em cada 5 delas pagam acima de US$ 120k por ano.
Eu respondi no chute em 2020. Minha primeira proposta internacional foi de US$ 30 por hora. Aceitei na hora, me sentindo rico: era quase o triplo do que eu ganhava como consultor no Brasil.
Meses depois, descobri que a empresa pagava US$ 90 mil ou mais por ano ao marketplace que me contratou. Eu recebia US$ 60 mil. O mercado sabia o meu preço. Eu não.
Quando entendi isso, negociei contratação direta e consegui 20% de aumento numa única conversa. Eu não fiquei mais habilidoso de um dia para o outro. Só passei a saber o número.
Essa edição do Radar é a tabela que eu não tinha em 2020.
Duas fontes, os dois lados da fronteira:
O Portal de Vagas NaGringa: 1.284 vagas ativas em 2 de julho, todas abertas para candidatos do Brasil (é o critério para entrar no Portal). 312 têm faixa salarial em dólar.
Nossa base do mercado brasileiro: 8.041 registros de dados salariais públicos e curados, filtrando ofertas de 2025 em diante.
E para o degrau de cima, os dois relatórios de mercado que o Gergely Orosz publicou no Pragmatic Engineer em maio e junho.
No final, as 3 vagas que eu atacaria, uma por degrau da escada.
O benchmark das vagas Tier S
As 312 vagas com faixa em dólar, usando o ponto médio de cada faixa. Filtrando só senior e staff, a mediana vai para US$ 189k (139 vagas).
O filtro quase não mexe no número, e isso é informação: das 312 vagas com faixa, só 16 declaram junior ou pleno. Metade nem declara nível, e essas pagam igual à mediana geral. Na prática, vaga Tier S quase sempre procura gente senior.
Essa tabela é a parte da edição para salvar. Printa, guarda, volta nela quando chegar proposta.
Como usar esses números numa negociação:
↳ Te ofereceram US$ 120k? Está abaixo de 3 em cada 4 vagas do Portal. Dá para pedir mais, com esse dado na mão
↳ US$ 185k é o meio da tabela, não o teto. Para senior, é o esperado, não o excepcional
↳ Acima de US$ 241k você está no top 10% do recorte. Aí a conversa é outra: nível, equity, empresa
Um cuidado antes de ancorar: faixa publicada costuma ser banda global, e contratação no Brasil às vezes sai perto do piso. A mediana dos pisos das 312 vagas é US$ 150k. Para planejamento conservador, use esse número. Para negociar, use a mediana.
Por área, a mediana varia menos do que você imagina.
O gráfico cobre as áreas de engenharia com 10+ vagas com faixa (134 das 312; o resto é produto, design, vendas e áreas com poucas vagas abertas, como frontend e mobile). Amostras pequenas mesmo assim, então leia como sinal, não como sentença.
O mesmo vale para stack. Entre as vagas com faixa, a mediana de TypeScript é US$ 212k, Python US$ 200k, Go US$ 193k. Quase empate. Trocar de linguagem para ganhar mais é otimizar a variável errada: o que muda o resultado é o nível e a fronteira que você cruza.
E uma nota de transparência: só 359 das 1.284 vagas informam faixa, e só 177 foram divulgadas pela própria empresa (o resto extraímos da descrição com AI). Está melhorando, a cobertura dobrou desde setembro, mas 7 em cada 10 empresas ainda escondem quanto pagam.
O viés da amostra é esse: quem publica faixa costuma ser empresa americana sob regra de transparência salarial. US$ 185k é a mediana de quem abre o jogo. Quem esconde pode pagar menos, e é mais um motivo para você chegar na conversa com a tabela pronta.
A escada de três degraus
Agora o outro lado da fronteira.
Na nossa base de salários do mercado brasileiro, ofertas de 2025 em diante, a compensação total anual por nível mostra o tamanho do primeiro degrau:
Se você lê a newsletter desde o começo, essa estrutura vai soar familiar. Em 2024, eu escrevi sobre o modelo trimodal de salários: empresas que competem local, nacional e globalmente pagam em faixas completamente diferentes.
Quando coloca o mercado local lado a lado com o benchmark das vagas Tier S, o mesmo modelo aparece de novo, dois anos depois, medido dos dois lados da fronteira. Eu penso nele como uma escada de três degraus:
Degrau 1: mercado local. Senior na mediana ganha R$ 210k por ano, contando stock e bônus. No p90, R$ 450k.
Degrau 2: vagas Tier S. As vagas gringas abertas para o Brasil pagam mediana de US$ 189k para senior e staff. Na conta US$ 1 = R$ 5, dá quase R$ 950k por ano.
Degrau 3: mercado dos EUA. Segundo os dados de Carta que o Pragmatic Engineer publicou, startups AI-native avaliadas em US$ 500M+ pagam US$ 300k+ de salário base no p80 para seniors nos EUA. Dá R$ 1,5M+ por ano na mesma conta, antes de equity.
Uma honestidade sobre o gráfico: os dois primeiros degraus são medianas; o terceiro é p80 de salário base, porque é o dado que existe. Leia o degrau 3 como teto realista, não como caso típico.
Do degrau 1 para o 2: mais de 4x. A favor da conta: faixa de vaga geralmente é só salário base, enquanto a mediana local já inclui stock e bônus. Contra a conta: a maioria dessas vagas contrata PJ ou contractor, sem 13º, férias remuneradas e FGTS. Desconte tudo isso e o degrau continua longe de fechar.
Aqui tinha um detalhe que eu quase deixei passar: a nossa base local não tem só empresa local. Ela também tem gente no Brasil reportando oferta de Google, Uber, Brex, Amazon e outras empresas que competem globalmente.
Por isso eu separo as duas leituras. A mediana por nível responde “quanto paga o mercado brasileiro como um todo”. O corte por empresa mostra outra coisa: quando a empresa compete no mercado global, o salário pago para quem está no Brasil muda de prateleira.
Mediana senior, ofertas de 2025 em diante, todas as áreas da base:
Brex também aparece nesse padrão: R$ 675k de mediana senior no corte de 2025 em diante, mas com só 4 registros. Fica fora do gráfico para não fingir precisão onde a amostra ainda é pequena.
Essa era a objeção que eu teria olhando o gráfico: “mas isso é faixa de vaga, não salário real”.
A diferença aparece dentro da própria base brasileira. Quando o pagador é global, o salário muda de prateleira.
O senior mediano das vagas Tier S ganha 3x o principal mediano do mercado local. A fronteira paga mais que a senioridade.
Subir de nível importa. Mas se o seu objetivo é renda, cruzar um degrau da escada vale mais que anos subindo dentro do mesmo degrau.
O degrau 3 importa por dois motivos.
A demanda por AI está puxando tudo. Vagas de AI engineering cresceram 60% entre as empresas monitoradas pela TrueUp, contra 12% de software engineering. No Portal, a empresa com mais vagas abertas hoje é a ElevenLabs, com 128. Somando a Deepgram, duas empresas de voice AI respondem por 14% do Portal inteiro. Tem demanda real ali. Mas ela está concentrada: se uma ou duas empresas freiam, o número muda rápido, nos dois sentidos.
Mas o prêmio de AI ainda não atravessou a fronteira. Na nossa base, as vagas de AI/ML com faixa publicada (19) pagam mediana de US$ 190k, abaixo do SWE generalista. O prêmio de US$ 300k+ está concentrado em quem contrata nos EUA. Se ele atravessar a fronteira, vai aparecer primeiro nesses números. Eu vou acompanhar a mediana de AI/ML nos próximos Radares e te conto.
As 3 vagas que eu atacaria, uma por degrau
No Radar #4 foram 8 vagas. Dessa vez são 3, uma por degrau da escada:
1. Sardine, Senior Software Engineer (a ponte do degrau 1 para o 2)
Local: remoto no Brasil (Florianópolis, BH, Curitiba, Campinas, São José dos Campos, SP, Rio)
Salário: R$ 285k a R$ 400k/ano
Tecnologias: TypeScript, Node.js, React, Python, Go, PostgreSQL, GCP
Ver vaga: Sardine - Senior Software Engineer
Empresa internacional de prevenção a fraude, pagando em reais, contratando no Brasil. Repara na faixa: o piso (R$ 285k) já está acima da mediana senior local (R$ 210k), e o teto (R$ 400k) fica perto do p90 senior local (R$ 450k).
É o degrau de entrada da gringa: você ganha experiência internacional, inglês no dia a dia e um salário de topo do mercado local, sem depender de câmbio nem de contrato PJ com os EUA.
A prova que eu levaria: sistema em produção onde erro custava dinheiro. Fraude é um domínio de detecção em tempo real, falso positivo e dado sujo. Se você já operou pagamento, risco ou qualquer pipeline crítico, essa é a história.
2. Chainlink Labs, Senior Software Engineer, Data Products (o teto do degrau 2)
Local: remoto, com Brasil listado na vaga
Salário: US$ 129k a US$ 304k/ano
Tecnologias: Go, TypeScript, Rust, PostgreSQL, AWS
Ver vaga: Chainlink Labs - Data Products
O teto dessa faixa é o teto prático das vagas Tier S: US$ 304k, com Brasil escrito na descrição, postada há um mês.
Infraestrutura de dados para blockchain, com Rust e Go no stack. Sistemas críticos com dinheiro em produção são um dos perfis que mais pagam nesse recorte, e cripto paga no topo dessa faixa.
A candidatura que eu montaria: dados em produção com consequência real. Pipeline que não podia atrasar, evento que não podia duplicar, número que precisava bater com o financeiro. Blockchain é diferencial, não requisito. Julgamento sobre corretude é o requisito.
3. Deepgram, Research Staff, Voice AI Foundations (onde o degrau 3 encosta no 2)
Local: remoto global, com LATAM explícito na vaga
Salário: US$ 150k a US$ 250k/ano
Tecnologias: Python, foundation models
Lembra do prêmio de AI que ainda não atravessou a fronteira? Aqui ele começa a aparecer.
A Deepgram é a terceira empresa que mais contrata no Portal (52 vagas), parte daquela concentração de voice AI. Essa vaga é o prêmio de AI com LATAM escrito na descrição, postada semana passada, e o teto de US$ 250k passa do p90 do Portal inteiro.
Filtro honesto: é vaga de pesquisa aplicada. Pede base matemática, experiência com arquitetura de foundation models e pipeline de dados em escala. É uma vaga para gente de ML/research, não para qualquer SWE. Por isso paga o que paga.
A prova que eu levaria: modelo que você colocou em produção, pipeline de dados grande que você construiu, inferência que você otimizou. Paper publicado ajuda, mas projeto público de ML com resultado medido também conta.
Se uma dessas três chamou sua atenção, o Gringo monta a tese de candidatura com você.
Como eu usaria essa tabela
Salve os três números: US$ 135k, US$ 185k, US$ 241k. Quartil de baixo, mediana, top 10% do recorte Tier S.
Na próxima proposta, você não vai responder no chute. Vai saber exatamente em que parte da tabela a oferta caiu, e negociar a partir daí.
E se ainda não tem proposta, o caminho é o mesmo do Radar #4: escolha uma ou duas vagas e escreva as três linhas.
Essa vaga parece girar em torno de X.
A melhor prova que eu tenho é Y.
O ponto que eu preciso preparar melhor é Z.
Se quiser transformar vaga em tese de candidatura, usa o Gringo, o assistente da NaGringa. Ele aceita áudio também. Só não manda “me ajuda com essa vaga”: cola o link da vaga e o seu contexto.
A lista completa fica no Portal de Vagas NaGringa.
E uma última coisa.
Em 2018, eu li um artigo sobre um desenvolvedor brasileiro ganhando R$ 25 mil por mês, remoto, para uma empresa americana. Demorei dois anos para agir.
Talvez esse Radar seja esse artigo para você. A diferença é que você já tem os números.
O formato desta edição foi um teste. Se você quer que o próximo Radar responda outra pergunta com dados (equity? entrevistas por área? câmbio e impostos?), responde este email. As melhores perguntas viram edição.
Fontes
Portal de Vagas NaGringa, dados de 2 de julho de 2026 (1.284 vagas ativas, todas abertas para candidatos do Brasil; 312 com faixa em dólar)
Base salarial NaGringa: 8.041 registros públicos e curados de salários do mercado brasileiro, ofertas de 2025 em diante
State of the software engineering job market in 2026 e part 2, Gergely Orosz e Jessica Salmon, The Pragmatic Engineer (dados de TrueUp e Carta citados via esses relatórios)
Para o câmbio, usei US$ 1 = R$ 5, aquela conta de cabeça que a gente se acostumou a fazer nos últimos anos








